Limbo: O jogo

Escape de armadilhas, sobreviva e desvende o misterio do Limbo.

Especial Halloween

Conheça alguns dos desenhos mais obscuros já produzidos

Minha Escuridão

A escuridão nunca está sozinha.

Preso em mim.

O que você faria se fosse a sua propria prisão?

Steampunk

Um gênero movido a engrenagens e a vapor.

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domingo, 2 de setembro de 2018

O porco de madeira versus o dragão de metal


Era uma vez um grande e majestoso dragão. Ele tinha longas asas, garras e de sua bocarra era capaz de fazer sair fogo, como qualquer dragão. Mas esse não era um dragão qualquer, era um dragão de metal. Seu enorme corpo era coberto por uma maciça liga de metal, dando dois aspectos singulares àquela criatura: primeiro, ele era assoladoramente belo. Incontáveis fileiras de placas hexagonais metálicas dos mais variados tamanhos faziam às vezes de escamas. Além do que, o reflexo da luz do sol ou da luz do sol através da lua sobre aquela superfície cromada brilhava sublimemente; segundo, as propriedades físicas do metal tornavam-no inexpugnável. Com efeito, em toda sua vida, ele nunca houvera sido ferido. Mesmo a íris ou a membrana mais fina de suas asas, onde um dragão comum poderia ser vulnerável, eram feitas de metal.

Era verão e o dragão de metal vagava despreocupado pelo céu. Até que, bem abaixo de si, avista uma enorme construção de pedra. Por conta da distância, a única coisa que ele conseguiu determinar é que tinha uma forma oval. Resolveu então, aproximar-se.  Enquanto descia se deu conta de que em volta daquela construção, na verdade, havia várias outras menores. Tratava-se de uma vila. Aquilo que havia chamado sua atenção ficava no meio da vila e muitas vozes vinham de lá. Voando tão baixo quanto o topo daquela forma oval, percebeu que ela era formada por uma série de degraus nas bordas e era vazia no meio. Os degraus estavam ocupados por centenas de animais que assistiam um confronto que ocorria no centro. Com a chegada do dragão, todos olharam para cima, horrorizados. O grande corpo do dragão cobria o sol projetando uma enorme sombra por toda a arena. Por alguns segundos houve silêncio.

Então lentamente, como se negligenciasse toda aquela atenção, o dragão se deixou cair e pousou no lamacento chão. Os dois gladiadores, um leão de pedra e um, já ferido, touro de pano tinham o olhar fixos à nova ameaça. O primeiro a se mover foi o touro que apesar do enorme corte na barriga, arremeteu com toda velocidade em direção ao dragão. Este, percebendo a aproximação, encheu o peito de ar, e quando abriu a boca em seguida, uma rajada de fogo seguiu, e tudo que se viu do touro foram cinzas e uma fumaça de cheiro impregnante.

Ao assistir aquilo o leão reuniu toda sua bravura e saltou, tão rápido quanto pôde, mirando o pescoço do dragão. Com uma forte bocada ele cravou os dentes na besta, ao mesmo tempo em que sacudiu a mandíbula. Metal rangeu, faíscas rolaram, mas o dragão não esboçava reação de dor, de fato aquilo não o feria. Com o leão ainda preso no seu pescoço, o dragão deu um salto e se pôs a bater asas e voar para cada vez mais alto. Quando o leão se deu conta do que o outro animal estava planejando eles já estavam acima da parte mais alta da arena. O dragão, então, chacoalhou o corpo, enquanto o leão ainda tentava se prender com as garras, mas não teve jeito, o leão caiu de lá de cima despedaçando-se. O agudo som do choque foi acompanhado pelo som de pavor da plateia. E em seguida silêncio.

O dragão voltou a aterrissar. Olhou em volta como se inspecionasse a plateia, foi então que viu uma plataforma de pedra próxima à entrada da arena, em cima dela havia uma estátua de pedra com as formas de um leão como que estivesse a rugir. Ele não sabia, mas aquela era uma estátua erigida em homenagem ao campeão da arena. O dragão se aproximou e com um golpe de calda pôs a estátua abaixo, e tomando o lugar da estátua começa a jogar fogo em direção aos céus. Como resultado de uma mistura de medo e deslumbre, os espectadores vibram e saúdam.

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Estava quente, muito quente. Mas para o porco de madeira, insuportavelmente quente, aquele devia ser o dia mais quente de todo o verão. Ele já procurara em todo canto da vila por um pouco de lama. O pouco que fosse, contanto que achasse lama era tudo o que passava em sua mente agora. Perguntou a todos, checou de sombra em sombra, revirou, mas nenhum pouco de lama era achado. Foi então que a serpente de areia veio até ele:

- Eu soube que você procura por lama. Pois bem, eu sei onde você pode encontrar.
- Onde? - Perguntou o porco prontamente.
- Na arena, respondeu a serpente sibilando um s no final da palavra. – Na arena, repetiu, você pode se esbaldar na lama.
- Mas não é perigoso? O porco franziu o cenho em estranhamento.
- Que nada! Disse a serpente de forma zombeteira, não há mais nenhuma batalha ocorrendo lá, eu sou o dono daquele lugar, eu saberia. E de novo fazia soar longos ésses nas palavras. De todo modo, continuou, espere aqui, eu vou na frente para ter certeza de que tudo esteja certo pra sua chegada.
- Oinc, Oinc respondeu o porco, muito obrigado.

A serpente de areia partiu então em direção à arena. Assim que saiu da vista do porco, a serpente começou a chamar todos os animais, para o que ele anunciava como uma luta imperdível.

                - Sim, venham todos! Venham ver o dragão de metal trucidar um novo desafiante, dizia enquanto seguia para a arena, e uma multidão o acompanhava. 

De fato, fazia tempo que não havia nenhuma batalha na arena. Desde que o dragão de metal havia chegado ninguém era tolo o bastante para desafiá-lo. A criatura continuava lá, deitada na plataforma, como se guardasse o lugar. E por conta de tudo isso, os negócios da serpente andavam muito mal. Mas ela planejava resolver isso com o “espetáculo” de logo mais.

Passado pouco tempo todos estavam em seus lugares, esperando para ver quem seria o tal guerreiro capaz de enfrentar o dragão de metal. Logo em seguida, o porco de madeira entra correndo na arena. Ao subir os degraus que davam acesso à entrada e ver aquele monte de lama, o suíno tinha partido em euforia para o tão aguardado banho refrescante.

Por conta de galerias aquíferas subterrâneas, uma poça no meio da arena ainda não secara, mesmo com todo aquele sol. E foi pra lá que ele correu, se jogou sobre a lama, e oinc-oincou.  Neste momento, uma cacofonia de risadas irrompeu. Todos começaram a rir daquela cena, mas principalmente riam da ignorância do porco. Como não ririam? Não importa como eles olhassem, era impossível para um porco e quanto mais um de madeira, ter chances contra um dragão e quanto mais um de metal: Uma simples faísca das chamas do dragão e fogo se alastraria por todo o corpo do porco; Um simples pisar, de uma das enormes patas de metal do dragão, e crack - o porco seria feito em pedaços. De sobressalto, o porco de madeira acorda do seu banho de frescor e olha em volta, percebendo a plateia pela primeira vez, se perguntando por que todos estavam ali e por que todos estavam rindo. Continua olhando em volta até que vê próximo à entrada, por onde ele tinha vindo, uma plataforma, sim, uma grande plataforma de pedra em que repousava aquela criatura terrivelmente bela e poderosa. Não pode ser, pensou, aquilo só pode ser uma estátua em homenagem ao último campeão.  Não era surpresa ele pensar assim, a criatura não se movia. O dragão de metal repousava de tal forma que mais parecia estar pousando de estátua para sua própria glória, afinal que estátua representaria tão bem algo tão incrível? De todo modo, aquilo ainda não explicava toda aquela gente, a serpente havia dito que não havia mais batalhas, logo não deveria haver mais ninguém lá. O animal de madeira correu o olhar então tentando encontrar a serpente. Virou-se e, atrás de si havia um lugar em destaque, lá viu a serpente de areia, sibilando e rindo. Nesse mesmo instante, sentiu subitamente um calor crescer em suas costas, no ínfimo segundo em que estava no meio do percurso de voltar à posição original e ver o que era, viu pelo canto dos olhos que um enorme jato de fogo vinha em sua direção. No susto, desengonçadamente recolheu as patas e pôs-se a rolar, aproveitando o formato de barril de seu corpo. Girou e desviou por muito pouco das chamas. Ouve-se o “UUUH!” da multidão. Se fosse um porco qualquer já estaria morto, mas ele era um porco de madeira e aquilo significava algo. Entretanto, só aquilo não seria o bastante contra aquela fera.

Na mente do porco de madeira só passava uma coisa: morte iminente. Ele se revezava entre se contorcer e chiar, enquanto isso o dragão de metal levantava-se de sua posição, como ela ficava muito próximo da única saída, o animal menor estava confinado. Numa tentativa desesperada, o porco começa a usar os cascos de madeira para cavar a poça de lama, em sua mente simplista, ele se enterraria e o dragão iria embora, como quando uma criança usa um cobertor para se cobrir do bicho papão. Em resposta, o dragão desceu da plataforma e começou a rodear o porco de madeira, regozijando-se em quão débil o outro animal era. Por fim, usou uma das patas dianteiras para descer um único golpe na lama.  Era o fim. O dragão rosnou para os céus e seguiram-se os energéticos vivas da arquibancada. Contrariando todas as expectativas, o porco de madeira saiu guinchando e correndo do meio da poça de lama, sua cor amarronzada havia se misturado à lama e confundido o dragão.

 Ao ver aquilo o dragão de metal fica impaciente. Ele sobe ao ar para ganhar altura e mergulha em um rasante buscando terminar aquilo por tostar o porco com um jato de fogo sem escapatória. Naqueles segundos que pareciam horas, o porco de madeira corria desesperado à frente enquanto o dragão de metal se aproximava cada vez mais. Quando não havia mais que um metro de distância entre eles, o perseguidor vagarosamente abriu bem a boca e começou a puxar o ar para lançar as derradeiras chamas. Assim que o porco de madeira percebeu o terrível animal tão perto, aqueles dentes à mostra, e sua vida por um fio, ele temeu tanto pela vida que involuntariamente, abriu a portinhola que ficava na sua traseira e bufou. Mas aquela não era uma bufa qualquer, afinal ele era um porco de madeira, a levedura em seu organismo eram exponencialmente mais eficientes e se adaptando ao ambiente de madeira, fermentavam por mais tempo. Assim que aquela nuvem verde foi tragada, houve um forte estrondo. O metano em contato com o fogo no núcleo do dragão expandiu-se, entrou em combustão, implodindo assim o dragão de metal. O dragão caiu ao solo, derrotado, para o choque de todos, inclusive, do porco de madeira.

Naquela mesma tarde, por todas as ruas da vila, de boca em boca, corria a história de como um porco de madeira derrotara um dragão de metal. Contava-se também, sobre como a serpente de areia havia perdido todas suas economias, isso incluía o direito sobre a Arena, por apostar tudo na vitória do dragão. Enquanto isso, o famigerado gladiador se esbaldava na tão sonhada poça de lama.

Minha Escuridão



É noite. Uma noite de uma escuridão muito profunda. O céu está completamente coberto de nuvens e mal dá pra ver a luz da lua. Chove muito. Um vento gelado faz arrepiar todos os pelos do corpo completamente molhado de Thomas. Ele foge. As ruas estão muito mal iluminadas e monstros o perseguem pela escuridão. Monstros que ele pode ver à espreita em todos os cantos. Não há pessoas na rua, está tudo deserto, mas é possível ver o vermelho cintilante dos olhos das bestas nos cantos escuros e becos. A luz do poste sobre sua cabeça se apaga e ele ouve um rosnado muito próximo de si. Ele corre, mas a cada poste que chega a sua luz se apaga. Alguma coisa o persegue, dá pra ouvir o peso dos passos da besta. Quase dá pra sentir o bafo da respiração daquele mostro que corre em seu encalço. Thomas grita, mas seu grito sai mudo. As casas ao redor estão com as luzes apagadas, como se não houvesse ninguém naquela cidade maldita.

Sentindo muito frio ele procura desesperadamente um lugar onde possa fugir. Thomas olha para a direita e consegue ver um prédio com aparência muito antiga. Há luz em seu interior e a porta está aberta. A luz sempre afasta aqueles demônios, ele sabe disso. Desde pequeno é assombrado por estas criaturas da escuridão e estava cansado de fugir. Cansado de viver com medo das trevas. Ele corre o mais rápido que consegue, entra no edifício e bate a porta atrás de si com toda a violência, trancando-a.

Por um instante ele fica segurando a porta fechada com as duas mãos e tenta ouvir o que está acontecendo do lado de fora, mas ouve somente seu próprio coração batendo violentamente no peito, sua respiração e o barulho da chuva forte batendo na janela. Ele se vira, apoia as costas na porta e deixa seu corpo escorregar até sentar-se no chão. Sua respiração ainda é ofegante e por isso resolve descansar um pouco ali e explorar um pouco mais aquele lugar. Um brilho muito forte invade as janelas do local, seguido de um estrondo ensurdecedor - Um raio! - pensou. Imediatamente todas as luzes do local se apagam. A energia foi embora.

Thomas sente um frio muito profundo subir-lhe pela espinha e experimenta o medo em sua forma mais pura. O local está tomado pelas sombras e os monstros, agora, estavam à espreita. Ele se levanta e vai ate a janela mais próxima. Não há cortinas. A água da chuva bate violentamente no vidro e escorre numa cascata torrencial. Não é possível ver nada por causa do escuro e por isso prefere ficar ali mesmo, onde pelo menos a chuva não o molha mais. Apesar do medo que sente ele resolve procurar por alguma coisa que possa iluminar aquele local. Lembra-se do celular e enfia a mão no bolso à sua procura, mas o que encontra é um objeto retangular completamente molhado e inútil. - Merda! - resmunga para si. Sem nada para iluminar seu caminho, resolve ir andando tateando pela parede.

Enquanto caminha ele ouve um animal rosnando. O rosnar ainda está longe, mas bastante audível e se aproxima mais à medida que ele caminha. Ele sente um cheiro de mofo no ar daquele lugar, como se ele estivesse fechado há bastante tempo e sente também um pouco de umidade nas paredes. O rosnado se aproxima e Thomas se sente cada vez mais aflito. Ele tenta caminhar o mais silenciosamente possível, mas sabe que aquelas criaturas malditas, tal como os cães, podem sentir o seu cheiro. Algumas tábuas no chão rangem com o seu caminhar o que faz o rosnar se aproximar um pouco mais. Seu coração acelera, sua respiração fica mais ofegante. Finalmente ele encontra uma porta. Ela não está fechada, apenas encostada. Ele empurra a porta e entra rapidamente, fechando-a atrás de si segurando a maçaneta, evitando o barulho do clique. Thomas respira fundo e solta o ar devagar para se acalmar.

Ele tateia pela sala, já que não consegue ver absolutamente nada, e percebe que nela há uma mesa do lado esquerdo ao lado da porta, e que à frente desta mesa há uma janela de vidro. Passa as mãos pela mesa, tentando encontrar algo que possa usar para iluminar o lugar e encontra uma gaveta. Dentro da gaveta é possível sentir que há uma pistola. Ele sabe que é uma pistola porque ela não tem um tambor. Ao lado da pistola, um pente carregado. Tateando, dá para perceber que a pistola está sem o pente, então Thomas insere o pente na cavidade do cabo até sentir o clique da trava e puxa o slide para introduzir uma munição na câmara da pistola. Enfia a arma na cintura da calça que veste, continua tateando pela mesa e encontra uma outra gaveta abaixo daquela. Dentro desta gaveta ele consegue sentir uma faca. Não tem mais nada além da faca e não dá para simplesmente enfiar uma faca no bolso. Ele a apoia em cima da mesa para decidir o que fazer em seguida.

Thomas continua pesquisando aquela sala escura e segue avançando por ela. Mais um pouco ao fundo ele sente que existe uma espécie de estante de aço. Ele sente o frio do metal com as pontas dos dedos e os percorre por aquelas prateleiras geladas. Sua mão toca em algo. Algo com formato cilíndrico. Sim! É uma lanterna! Infelizmente ela não funciona. Por estar leve demais ele logo supõe que faltam-lhe as pilhas. Mas onde diabos ele iria encontrar pilhas numa sala completamente escura? Não é necessário procurar muito. Não muito longe de onde a lanterna estava ele consegue sentir dois objetos cilíndricos menores frios ao toque, indicando que seriam metálicos. Desta vez, porém, ao tentar pegá-los, os objetos acabam rolando pela prateleira e caem no chão à sua frente - Era tudo o que me faltava - pensa ele abaixando-se imediatamente para tentar encontrar as pilhas. Uma brisa fria passa por sua nuca e o faz parar. Não é possível ouvir barulho algum. Thomas sente os pelos do corpo se arrepiarem, sente uma presença na sala, não pode ver nem ouvir nada mas ele sabe. Ele não está sozinho.

A procura pelas pilhas segue agora num ritmo frenético, quase desesperado, era necessário iluminar aquela sala ou então a morte o esperava de braços abertos. Suas mãos tocam em algo no chão e ele logo percebe que encontrou as pilhas. Rapidamente ele abre o compartimento traseiro da lanterna e introduz as pilhas ali, sentindo o polo positivo com a ponta do dedo. Fecha o compartimento e se levanta acionando o botão para acender a lanterna. Uma forte luz é projetada em direção ao teto e Thomas sente o coração congelar ao ver que em sua frente, não mais do que alguns centímetros, um daqueles monstros está olhando fixamente em seus olhos. Subitamente, num impulso, sua mão vai até a cintura pega a pistola e numa velocidade incrível ele aponta e dá um tiro abaixo do maxilar daquela criatura, estourando a parte de cima de sua cabeça. O barulho do disparo é ensurdecedor e o faz fechar os olhos. Uma massa de cor negra de odor fétido se espalha pelas paredes e pelo teto da sala.

Thomas se abaixa e se encolhe no canto da sala logo atrás de si por alguns instantes, enquanto o zunido no seu ouvido vai diminuindo gradativamente. Sua respiração está extremamente ofegante, fazendo o feixe de luz da lanterna que ele aponta para a porta tremer. Após se acalmar um pouco o zunido em seu ouvido desaparece e ele volta a ouvir um silêncio ensurdecedor. Levanta-se e resolve vasculhar o restante da sala. O mau cheiro vindo daquele monstro morto à sua frente o obriga a usar a camisa para proteger o rosto. Ele se vira. Ao lado da estante de metal há um arquivo, também metálico. Ele tenta abrir a primeira gaveta, mas ela está trancada. Tenta a segunda, mas também sem sucesso. A terceira gaveta, porém, abre sem nenhum esforço. Dentro dela só existe uma pasta suspensa e mais nada. A pasta não possui rótulo e esta vazia. Segurando a pasta na mão uma ideia lhe vem à mente como num lampejo.

Thomas se vira e retorna à mesa onde apoiou a faca há poucos instantes. Ele apoia a pasta na mesa e fica encarando os dois. Logo ele começa a rasgar a pasta suspensa, dobrando o papelão em alguns lugares, usando a faca como molde e acaba por criar uma bainha de papelão, mas como não tem uma fita adesiva para segurar o papelão no lugar, decide prender seu origami na meia, que apesar de estar molhada, ainda está bem justa ao seu tornozelo. Ele suspende a perna da calça, estica um pouco a meia e ajusta a faca com a bainha ali, baixando a perna da calça em seguida. O mau cheiro está ficando insuportável e ele precisa sair daquela sala. Passa com muito cuidado por cima do corpo que jaz sem vida à sua frente, abre a porta com muito cuidado e sai fechando-a atrás de si, novamente evitando o clique segurando a maçaneta.

Agora armado, ele segue pelo corredor segurando a pistola com uma mão e a lanterna com a outra ambas apontando para a frente. Segue avançando lentamente, evitando fazer barulho. Um rosnado recomeça baixo à sua frente. Ele não consegue saber a distância exata, mas percebe que ainda está longe dele. Thomas começa a ficar nervoso e acelera um pouco os passos procurando um lugar para se proteger. Os corredores daquele lugar não lhe oferecem proteção alguma. Ali ele se sente completamente vulnerável. O feixe da lanterna ilumina uma porta à sua esquerda e imediatamente ele vai até ela. A porta, entretanto, está trancada e ele precisa seguir em frente. O corredor termina e ele se vê numa espécie de saguão. Para frente há um novo corredor e dos lados, escadarias levam para o pavimento superior.

Enquanto iluminava a escada, Thomas não percebe a besta que avança em sua direção, acertando-lhe um golpe violento. Seu corpo é projetado para direita e bate com força nos primeiros degraus da escada. A lanterna solta de sua mão e cai virada para ele, ofuscando sua visão. Uma dor lancinante percorre seu corpo e o desespero toma conta de si quando ele percebe o rosnado forte se aproximando dele. Sem conseguir ver direito e em completo desespero, Thomas dá três tiros na direção do rosnado. Ele ouve um baque abafado, como um corpo que cai e o barulho cessa.

Com um certo esforço ele se levanta, pega a lanterna no chão e aponta para o lugar onde o monstro estava. Um mau cheiro começa a tomar conta do ar e diante de si está o corpo daquela criatura já sem vida. Ele resolve subir as escadas e procurar no andar superior por algum lugar para se esconder até o dia amanhecer. Após subir dois lances de escada, Thomas se vê novamente diante de um corredor que se estende para ambos os lados. Porém diante dele há uma porta. Ela também está trancada, mas possui uma janelinha de vidro. Ele resolve quebrar o vidro com a coronha da arma, enfia o braço e destranca a trava da porta. Com a ajuda da lanterna ele vasculha o lugar.

Existem quatro camas alinhadas. Duas de cada lado. As camas possuem corpo metálico e estão arrumadas. Ele caminha pela sala e vê um armário ao fundo. As portas do armário estão trancadas. O cansaço que ele sente é imenso e por isso resolve se dirigir a uma das camas para deitar um pouco. Ao se virar, sente um bafo quente atrás de si. Thomas dá um pulo para frente se virando a apontando ambos a lanterna e a pistola. Dois monstros surgiram do nada atrás de si, como se tivessem saído debaixo da cama. Apesar do susto, ele tenta manter o sangue frio e dá somente dois tiros. Um para cada, na cabeça. Aquela sala já não está mais segura e o odor fétido que exala daquelas criaturas também o obriga a seguir. Ele sai da sala e segue pela esquerda.

Após sobreviver a três ataques, Thomas começa a se sentir mais seguro e não toma mais tanto cuidado ao caminhar. Já anda com um pouco mais de velocidade. Tem confiança na arma que carrega. Uma outra sala surge do lado direito. Ele abre a porta, mas algo empurra a porta com força fazendo-o cair para trás, batendo as costas na parede do lado oposto do corredor. Alguma coisa com uma força tremenda golpeia a porta violentamente. Thomas fica paralisado sem saber o que fazer. Uma vez após a outra a porta recebe golpes violentos até que subitamente os golpes cessam. Ele respira fundo e começa a se levantar lentamente, olhando fixamente para a porta com o feixe da lanterna apontado para ela. A maçaneta gira e ele ouve um clique. Thomas aponta a pistola e dispara quatro vezes, perfurando a porta.

De pé diante da porta perfurada, Thomas aguarda por alguns instantes sem ouvir barulho algum. Ele resolve abrir a porta para verificar se aquela criatura está realmente morta. Respira fundo, pega na maçaneta gelada e gira. Ele ouve o clique e a porta começa a abrir. Mas assim que ele empurra um pouco a porta, algo a puxa bruscamente escancarando-a de vez. Thomas toma um susto imenso ao ver diante de si um monstro de proporções grotescas como ele jamais havia visto. Aquele mostro começou a fazer um barulho ensurdecedor e olhou para ele com os olhos vermelhos, como que em brasa. Não há muito o que pensar e Thomas imediatamente põe-se a correr com aquela besta em seu encalço. Enquanto corre, ele ainda dispara duas vezes tentando acertar o monstro, mas nada parece para aquele demônio.

Correndo o máximo que pode, usando todas as suas forças, ele consegue ver ao longe uma claridade muito suave e percebe que existe uma porta entreaberta no final do corredor. Do lado de fora uma luz suave brilha - O sol esta nascendo!!! - grita ele enquanto corre. A criatura possui uma força imensa e consegue correr a uma velocidade imensa e logo ela está muito próxima dele. O monstro dá um golpe, mas não consegue acertá-lo. Ele consegue sentir o vento deslocado pelo golpe que a fera desferiu. Um segundo golpe, porém, consegue acertar sua perna esquerda, fazendo-o tropeçar e cair. A arma solta de sua mão e escorrega parando a cerca de um metro de distância dele. Sua perna dói muito e ele não consegue se levantar. Thomas se arrasta, alcança a arma, vira o corpo rapidamente, mira a cabeça daquela criatura e numa fração de segundos ele sente todo o seu sangue gelar. O tempo ao seu redor parece desacelerar rapidamente até congelar. Ele consegue ver nitidamente aquela aberração voando em sua direção e aperta o gatilho. O terror toma conta dele ao perceber que a pistola não possui mais balas.

Aquele mostro que o perseguia, agora cai com tudo em cima dele. Com uma pata sobre seu peito, aquela besta faz um urro altíssimo e olha em seus olhos com um ódio incrível. O animal, suspende a outra pata e se prepara para lhe golpear quando Thomas se lembra de algo. Rapidamente ele dobra a perna para alcançar a faca que guardou presa à meia, puxa ela da bainha improvisada e a enterra com toda violência no pescoço daquela criatura. O monstro tomba para o lado num ato de desespero, se debate nas paredes do corredor e em poucos instantes seus movimentos reduzem-se apenas a respiração agonizante. Thomas desmaia.

O calor do sol bate no seu rosto fazendo-o despertar. Ele está completamente confuso e não sabe o que aconteceu. Thomas olha para o lado, vê a pistola e começa a se lembrar da noite terrível que passou. Sente dores no corpo todo e lentamente levanta-se. Ao olhar para frente ele não vê o corpo de um monstro, mas o corpo de um homem. Era um homem de grande estatura e forte. Tinha uma faca cravada em seu pescoço e seu corpo jazia numa poça de sangue. Thomas fica confuso e corre novamente, voltando para o lugar de onde veio. Na sala onde ele matou os dois monstros, haviam duas pessoas mortas. Ele começa a ficar desesperado e desce as escadas. O corpo de uma mulher está no térreo, ao pé da escada. Lágrimas escorrem de seu rosto e ele não entende o que está acontecendo. Começa a caminhar pelo lugar sem conseguir pensar direito e começa a ouvir um choro ao longe. Parece um choro de criança.

Ele começa a procurar a origem daquele choro e vasculha sala por sala, até que numa sala vazia, sem móveis, ele encontra uma garota encolhida no canto, chorando. Ela veste um vestido florido encardido e segura um ursinho azul, igualmente encardido. Thomas é tomado pela emoção e corre para abraçar aquela criança, completamente em prantos. Ele se abaixa e acolhe a criança em seus braços, apoiando a cabeça dela em seu ombro, dizendo que vai ficar tudo bem e que a levará para fora daquele inferno em segurança.

A polícia chega ao local e encontra corpos e muito sangue nos corredores e nas salas.
Numa sala sem móveis, no térreo, eles encontram um corpo. O corpo de um homem.

Ao lado do corpo, um urso de pelúcia encardido.

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Angel



Não restando mais nada, nem qualquer outra chance segura de permanecer por ali, Angel resolve retornar para seu ponto de origem. Seguindo pelo túnel escuro ele vê aquela luz distante e caminha por longos minutos até atingir a luz. Ali, ao fim do túnel, ele se lembra do gigante que tentou impedir sua passagem e se esconde assim que vê. O gigante ainda não notou sua presença. Seu coração acelerado bate tão forte que talvez alguém consiga ouvir. Sua respiração é ofegante e ele não consegue conter o nervosismo quando de súbito uma mão gigante o alcança e o agarra tão rapidamente que ele não esboçar qualquer reação. O horror toma conta de si quando ele percebe que sua vida chegou finalmente ao fim. Um filme passa em sua frente enquanto ele permanece de olhos fechados, sem ter coragem de abri-los para encarar seu algoz.

– Não faça nenhum barulho – diz uma voz suave num susurro. Angel finalmente abre os olhos e pode ver que quem o apanhou não foi o temido gigante, mas uma figura feminina da mesma espécie. Ela o esconde em sua mão e caminha para longe do gigante, que não estranha a movimentação dela.

Eles caminham por um corredor bastante amplo de aparência bastante antiga, calçado de paralelepípedos. Paredes de pedra se estendem por ambos os lados e o céu está coberto de nuvens escuras. A figura gigantesca abaixa sua mão e o solta logo após uma curva, quando o gigante não está mais visível. Ela o olha com ternura, mas não diz mais nada. Ele agradece pela bondade inclinando a cabeça e segue seu caminho.

Ele passa por um local coberto de barro seco e se lembra que aquele é o exato caminho por onde veio, mas chovia naquela ocasião e anteriormente ali se encontrava uma poça de lama. Angel agradece em silêncio o fato de não estar chovendo e ele não sabe quanto tempo se passou desde a última vez que esteve ali.

Após caminhar por mais um tempo, ele alcança o fim do amplo corredor, que termina numa parede de pedra com uma velha porta de madeira ao centro. Ele abre a porta com cuidado evitando fazer barulho e adentra em um local mal iluminado, cheio de entulho e com cheiro de mofo. O chão está completamente molhado, formando uma lama escorregadia. O local é bem amplo, o teto é absurdamente alto, as paredes mostram um desgaste completo, com vários tijolos à mostra e ele pode ver que existe um segundo piso no alto à direita. Lá em cima há um varal com uma camisa encardida estendida. Ele não sabe como alguém chegou lá em cima, pois a única escada que levaria até está destruída e somente cinco degraus estão inteiros, o resto desabou e se juntou aos outros entulhos no chão.

Angel não se lembra daquele local e sente o medo tomar conta de si, mas segue caminhando próximo à parede na ponta dos pés, evitando fazer barulho. Ele escala uma montanha de entulho para alcançar o portão de madeira que vê adiante. Goteiras caem do teto e deixam o caminho enlameado. Ele se desequilibra e precisa levar as mãos ao chão para não cair. Após escalar todas aquelas pedras ele finalmente alcança o portão, que está fechado com uma grossa corrente, mas a madeira completamente podre cede com facilidade a qualquer força e assim Angel consegue empurrar a parte mais baixa e forçar sua passagem para o outro lado.

Uma luz branca muito intensa o cega quando ele atravessa o portão, fazendo-o levar as mãos aos olhos para se proteger. Ele se detêm com os olhos fechados e sente uma leve brisa quente tocar seu rosto e fazer balançar seus longos cabelos. Quando a sua visão finalmente volta ao normal ele fica totalmente chocado com o que vê. Sua cidade não existe mais. Ao invés das ruas, prédios e árvores que costumavam estar ali ele se vê diante de um vasto deserto de concreto entulhado até onde a vista alcança. Não há um ponto verde sequer, nem uma criatura viva sobre a terra ou nos céus.

Angel está sozinho.

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Frio



Paro meu carro no acostamento da estrada. Na verdade nem sei pra onde estou indo. Olho para frente fixamente mas não vejo nada diante dos meus olhos, meus pensamentos estão em outro lugar, quando percebo, há uma placa diante de mim com uma seta para a direita e um texto bem grande: Estacionamento. Sigo o caminho indicado pela seta e me deparo com um lugar com o chão de paralelepípedos e logo adiante uma praia. Saio do carro e começo a caminhar.

O céu está nublado, mas não está chovendo. Uma família brinca próximo da água. Me detenho por um instante vendo a alegria estampada nos rostos daquelas pessoas, uma alegria cujo significado eu não sei mais. Levo a mão ao bolso do sobretudo preto que visto e acendo um cigarro, posso ver a fumaça subindo em linha reta, não há vento. Olho para o mar e vejo que o céu trocou seu tom cinza claro por um bem mais escuro e o mar começa a ficar revolto, apesar disso, não sinto vento algum tocar meu rosto. 

Subitamente uma forte ventania nos atinge. O mar se eleva diante de meus olhos. A família que estava à minha frente não estava mais lá e começo a recuar, dando passos para trás mas olhando fixamente pro mar, que se revolve em ondas cada vez maiores. Em poucos instantes a água começa a avançar de forma violenta: se havia uma forma de fugir agora não parece mais haver. Giro meu corpo para começar a correr, mas a massa de água me atinge e tudo fica escuro.

Frio.

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sábado, 1 de setembro de 2018

Preso em Mim



Passa pouco mais das 17:00 horas, uma multidão segue rumo ao centro da cidade. Todos movidos por um dos maiores venenos da humanidade: A Curiosidade. Cerca de aproximadamente dez minutos, duas grandes bolas de fogo cruzaram o céu da cidade, dirigindo-se para o centro da cidade. Eu estava lavando o carro quando senti o deslocamento de ar, pouco depois veio o barulho ensurdecedor, pensei que seria o meu fim, mas por sorte ou azar, os dois objetos em chamas seguiram seu destino até que colidirem com o solo quilômetros à frente. Agora sou apenas mais um curioso seguindo a multidão cega ladeira à cima.
Conforme vou me aproximando do local da queda, vejo carros da polícia, bombeiros e mais curiosos, todos com cara de espanto e perplexidade. Uma cidade tão pacata situada no meio do nada, até então deliciando-se em sua singela rotina de um comum sábado de verão, agora mais parece uma Woodstock sem o rock n roll. Sinto-me estranho, um leve zunido no ouvido, uma tontura aqui, outra ali. Penso que deve ser a emoção por presenciar tal evento, afinal algo caíra do céu e certamente não eram anjos alados, pois anjos alados não se viajam em esferas de fogo.
Estou cerca 500 metros do local, vejo a trilha de destruição e caos deixada pelos objetos flamejantes. Desvio-me do caminho para ajudar uma senhora que estava presa sob o que parecia ser uma barraquinha de cachorro-quente, soube mesmo antes de ler o letreiro, devido ao cheiro do molho e das salsichas espalhadas pela calçada. Você está bem? Pergunto ajudando-a a se levantar, ela respondeu que sim com a cabeça, em seus olhos assustados ela me agradeceu e seguiu seu rumo, mancando. Deixe-me sair, sozinho você não dará conta. Virei-me para ver quem falava, porém não havia ninguém que poderia estar falando comigo, apenas os curiosos seguindo para o centro, e os feridos sentados na calçada ou indo em direção oposta. Se não conseguir me libertar à tempo, nós dois vamos morrer. Mais uma vez viro de costas para localizar a voz, mas sem sucesso, não havia ninguém ali.
Que merda está acontecendo, penso eu. Sinto-me estranho, minha visão fica embaçada, balanço a cabeça a fim de recuperar o foco. De repente todas as cores somem da imagem que se projeta à minha frente, sinto-me angustiado. Fico ereto e olho em direção à base da cratera formada pelo recente incidente, meu corpo projeta-se a passos firmes em direção ao desastre. Não sinto meu corpo, parece que sou apenas um passageiro preso nesse receptáculo em movimento, tento inutilmente controlar minhas pernas, mas sem nenhum sucesso. Meu deus o que está acontecendo comigo? Pergunto-me desesperado. Minha cabeça vira-se levemente e vejo corpos caídos, quanto mais perto chego, mais corpos estão espalhados. Não sei se são feridos ou mortos, com a visão dicromatica fica difícil distinguir. Sinto a culpa corroer o meu ser quando meu corpo robotizado e sem a minha consciência para guiá-lo, passa por cima dos cadáveres estendidos no chão. É notório o aumento da minha temperatura corporal. Minha cabeça abaixa sutilmente e olha para as mãos que outrora ajudaram uma senhora a sair debaixo de um carrinho de cachorro-quente. Noto que meus braços começam a exalar uma leve bruma, minha boca sorri. Nesse momento as cores retornam à minha visão e eu caio de cara no chão. Sinto o sangue quente escorrer do meu nariz, meu rosto dói. Levanto-me e olho minhas mãos, a bruma que a pouco emanava agora já não mais existe. Pergunto-me o que poderia ter sido aqui. Será que isso tem a ver com os objetos que vi cruzando o céu minutos atrás? Recolho até a última gota de coragem que resta em meu corpo e olho de forma decidida para o centro do local da queda, ergo-me cerrando os punhos e sigo determinado ao encontro do desconhecido.
Chego ao local, o cheiro de corpos queimando, torna o que antes era uma bela praça em uma verdadeira imagem de como poderia ser o inferno descrito pelas diversas religiões. Definitivamente não são anjos caídos do paraíso. Os objetos ainda estão em estado flamejante e distam entre si a uma distancia de 10 metros aproximadamente. Mesmo com todo o caos e morte ao redor, as duas esferas em chamas proporcionam uma visão única. Enquanto admiro aquelas esferas de fogo a queimar no fundo da cratera, sinto-me tonto novamente, mais uma vez minha visão fica turva e caio de joelhos. Tudo fica escuro, estou consciente, mas não consigo enxergar, sinto meu corpo levantando e ficando enrijecido, sinto todos os cheios possíveis, sinto o calor que emana das esferas ardentes abaixo. Aos pouco minha visão é restabelecida, só que novamente vejo tudo em uma escala monocromática. Minha cabeça se vira e encara as demais pessoas ali. Fujam ou todos vão morrer. Essa não é a minha voz. Provavelmente é a sensação mais estranha que já senti. Palavras saindo da minha boca que não foram ditas por mim. Mais uma vez sinto meu corpo arder, não tenho domínio sob meus membros, sou mais uma vez um passageiro em meu corpo guiado por alguma coisa. Escute bem seu idiota fracote. Dessa vez minha boca não se moveu, ouvia aquelas palavras sem usar os meus ouvidos. Nesse momento percebi que era a mesma voz que falara comigo quando salvava a senhora em apuros. Escute bem o que lhe digo seu saco de carne inferior. Fui tomado por um medo surreal. Aquela voz estava vindo diretamente da minha cabeça, tentei mais uma vez retomar o controle do meu corpo, e novamente falhei. Não tente vir à tona, se você o fizer, todos nós morreremos. Você me entendeu? Não sei como responder uma vez que não tenho controle sobre minha boca, então em pensamento digo que entendi. E então a voz retorna dizendo: Vejo que ainda está ai e consciente, talvez você queira apreciar uma boa negociação intergaláctica. Se eu pudesse sentir a minha espinha, com certeza ela estaria congelada de medo. Sinto meu corpo saltar para dentro da cratera onde ainda encontram-se as duas esferas em chamas.
Meu corpo pousa como se fosse uma pluma. Sinto outra a temperatura do meu corpo aumentar, é um calor diferente, estranho. O que você esta fazendo com o meu corpo? Pergunto para o nada, e em segundos recebo a resposta. Salvando o seu mundo, agora por favor, queria ficar quieto. Seu corpo não é tão forte, por isso não me interrompa novamente. Algo chama a atenção dos meus olhos, a luz produzida pelas chamas das esferas se apaga. Meu medo escala juntamente com a minha curiosidade. Sinto uma energia estranha emanando do meu corpo, nunca sentira nada parecido. Vamos lá! Diz a voz em uma mistura de alegria e ansiedade.
Minha cabeça se posiciona a fitar as esferas, meu olhar está direcionado e bem centrado na esfera mais próxima. Minha visão monocromática não possibilita que eu identifique de que cor são as esferas. Meu corpo permanece imóvel, firme e atento. De repente um ponto de luz surge perto do topo da esfera. Esse ponto de luz se divide em dois, distanciando-se um do outro de forma simétrica. Quando esses feixes de luz eqüidistantes atingiram uma determinada largura, seguiram-se  para baixo, mantendo a distancia entre si, percebi o que estava acontecendo e simplesmente disse: Uma porta, a luz está formando uma porta. A voz veio ríspida e alta em minha mente. Calado, por acaso você quer morrer? Calei-me no mesmo instante, aguardando com certa ansiedade o que sairia daquela esfera.
Quando os feixes concluíram o ciclo, formando um retângulo. A luz subitamente apagou e o retângulo antes delimitado pelas luzes, começou a se tornar translúcido. E de dentro da esfera surge uma criatura humanóide, longos braços e longas pernas, uma cor próxima ao azul escuro. A criatura parece estar meio desorientada, aparenta ter mais de dois metros. Percebo que ela olha para todos os lados, parece ter certa admiração pelo que vê. Mas quando seus olhos fitam os meus, a criatura a minha frente toma uma postura defensiva. Mantenho os olhos fixos naquele estranho ser a minha frente, por alguns segundos nada acontece, parece que ela está me examinando, me sinto completamente desconfortável sob aquele olhar perturbador. Mas segundos depois, a criatura sai da postura defensiva, seu olhar examinador continua pairando sobre meu corpo. A criatura exibi o que suponho ser um pequeno sorriso, fala algo em uma língua que nenhum filme que eu tenho visto consiga se aproximar. Quando a criatura vira de costa a fim de embarcar novamente na esfera, meus olhos movem-se sem o meu consentimento, e  fitam a segunda esfera que já encontra-se aberta. Nesse momento entro em pânico. A única coisa que vejo é um borrão azul escuro à minha frente, sinto um forte golpe que me arremessa cratera acima. Meu corpo voa por mais de 15 metros de altura. Quando paro de subir, sinto apenas a dor no meu peito. Sei que é o fim, penso. Sigo em direção ao chão que se aproxima velozmente. Nenhum humano sobreviveria à isso. Se eu tivesse controle dos meus olhos, com certeza iria fechá-los, mas meus olhos não focalizavam o chão e sim a segunda criatura que agora estava de pé à beira da cratera, a observar a minha queda. Meus olhos rapidamente focam o chão e eu penso “é agora”. Só que faço um movimento extremante rápido e como se fosse um bailarino, pouso suavemente no terreno cheio de corpos espalhados. Sinto alegria por estar vivo, mesmo não sendo mais o dono do meu corpo. E aí humano? Pergunta-me a voz na minha cabeça. Estamos pronto?